Aspidistra elatior - Plantas de interior (quase) indestrutíveis

A minha vivência de alguns anos à volta das plantas de interior, fez-me de alguma forma querer passar a todos quantos me leiam, não só o conhecimento técnico "formal" que fui obtendo sobre as várias espécies, mas sobretudo o conhecimento que deriva da minha experiência pessoal. A parte das "crónicas e devaneios" no título do blog, surge da minha vontade de querer ir um pouco mais além das dicas de cultivo. Quero partilhar convosco os motivos pelos quais as plantas de interior fazem parte do meu imaginário e também factos curiosos (ou bizarros) sobre as mesmas, e que porventura não sejam muito fáceis de encontrar (pelo menos em português). Ter feito um blog sobre plantas de interior tem também tido o condão de despertar nas minhas amigas (os meus amigos acham que estou a gozar quando digo que gosto deste hobby das plantas) a vontade de me oferecerem...plantas. Foi por isso uma óptima sensação, uma grande alegria mesmo, quando há poucos dias me ofereceram várias folhas de Aspidistra (Aspidistra elatior), com muitas raízes, e em quantidade suficiente para as distribuir por dois vasos.

Plantas de interior: Aspidistra elatior

Aspidistra elatior

A Aspidistra estará sempre associada aos tempos da minha infância, principalmente à casa da minha avó, onde vasos enormes de barro, pintados de vermelho, continham magníficos exemplares destas plantas de interior. Já no meu post anterior falei de modas, e a Aspidistra foi sem dúvida vítima da moda. Hoje em dia é praticamente impossível encontrá-la em qualquer horto, provavelmente caiu em desuso devido ao seu crescimento lento ou talvez devido ao seu aspecto "démodé" (eu acho-as lindíssimas). Quando passeio por Lisboa, ainda as vejo em vários vãos de escada e átrios escuros, onde só esta magnífica planta consegue sobreviver. É uma pena que a Aspidistra não seja devidamente apreciada nos dias que correm, uma vez que é considerada quase unanimemente como sendo a planta de interior mais resistente do mundo. Depois de ter sido introduzida em Inglaterra em 1822, tornou-se rapidamente a planta favorita da época vitoriana e quase todas as famílias de classe média tinham uma. Os lares da época vitoriana eram escuros e muito pouco ventilados, mas a Aspidistra conseguia (e consegue) resistir a tudo isso. O seu nome em inglês, Cast-iron plant, diz tudo. Uma planta de ferro fundido, praticamente indestrutível. A Aspidistra começou a sair de moda em Inglaterra depois da 1ª Guerra Mundial, mas ainda assim o seu canto do cisne foi em grande. Em 1936 o romancista inglês Eric Arthur Blair, sob o pseudónimo de George Orwell, escreveu o romance "Keep the Aspidistra Flying", maravilhosamente traduzido para português de Portugal como "O Vil Metal" (?) e para português do Brasil como "Mantenha o Sistema (?).

Plantas de interior: George Orwell

Eric Arthur Bain
(foto sem direitos de autor)

Onde foi parar a Aspidistra? Adiante. Ou seja, embora os portugueses (e brasileiros) tenham expulso a Aspidistra do título do romance de Orwell, ela está lá, e não resisto a transcrever uma passagem que ilustra bem a tão famosa indestrutibilidade desta planta de interior:

"...As Gordon threw away the match his eye fell upon the aspidistra in its grass-green pot. It was a peculiarly mangy specimen. It had only seven leaves and never seemed to put forth any new ones. Gordon had a sort of secret feud with the aspidistra. Many a time he had furtively attempted to kill it — starving it of water, grinding hot cigarette-ends against its stem, even mixing salt with its earth. But the beastly things are practically immortal. In almost any circumstances they can preserve a wilting, diseased existence. Gordon stood up and deliberately wiped his kerosiny fingers on the aspidistra leaves...."

Depois do simpático (!) Gordon ter falhado as suas tentativas de matar a Aspidistra, posso-vos dizer que no final do romance ele e a Aspidistra fazem as pazes... Também a cantora, comediante e estrela de music hall inglesa, Gracie Fields, teve na canção cómica "The Biggest Aspidistra in the World" um dos seus grandes sucessos.

Plantas de interior: Gracie Fields

Gracie Fields com a orquestra da RAF em 1939 (foto sem direitos de autor)

Pese embora possa "levar muita pancada", a Aspidistra reage muito melhor se for tratada com carinho. A sua durabilidade também é famosa, existindo relatos de Aspidistras que passaram de geração em geração na época vitoriana. Assim sendo, em breve farei um post mais "técnico" sobre a melhor forma de cuidar desta míticas plantas de interior. Até lá, fiquem com as primeiras palavras da engraçadíssima canção, "The Biggest Aspidistra in the World" (no YouTube conseguem ouvir a própria Gracie Fields a cantá-la):

For years we had an aspidistra in a flower pot On the whatnot, near the 'atstand in the 'all It didn't seem to grow 'til one day our brother Joe Had a notion that he'd make it strong and tall So he's crossed it with an acorn from an oak tree And he's planted it against the garden wall It shot up like a rocket, 'til it's nearly reached the sky It's the biggest aspidistra in the world We couldn't see the top of it, it got so bloomin' high